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Umbanda cruzada é um termo que gera curiosidade e, por vezes, confusão entre praticantes e estudiosos das religiões afro-brasileiras. Se você já ouviu falar em umbanda cruzada e quer entender o que realmente significa, de onde surgiu e como se diferencia de outras vertentes da Umbanda, este guia completo do Cantinho de Oxalá vai esclarecer todas as suas dúvidas.
Neste artigo, vamos explorar a origem, as características, os rituais e as polêmicas envolvendo a umbanda cruzada, além de explicar as diferenças entre ela e outras formas de prática umbandista. É um tema que merece ser tratado com respeito e profundidade.
O Que É Umbanda Cruzada?
A umbanda cruzada é uma vertente da Umbanda que incorpora elementos de outras tradições religiosas afro-brasileiras, principalmente do Candomblé, da Quimbanda e, em alguns casos, do Catimbó e da Jurema. O termo “cruzada” se refere justamente a esse cruzamento, essa fusão de práticas e fundamentos de diferentes origens.
Na umbanda cruzada, é comum encontrar rituais que misturam elementos da Umbanda tradicional — como a incorporação de Pretos Velhos, Caboclos e Erês — com práticas mais próximas do Candomblé, como o uso de atabaques consagrados, sacrifício ritual (em alguns casos), assentamentos de orixás e o uso mais intenso de elementos rituais como pemba, pólvora e fundanga.
É importante compreender que a umbanda cruzada não é uma “Umbanda errada” ou inferior. É simplesmente uma forma diferente de praticar a espiritualidade, que surgiu naturalmente da convivência entre diferentes tradições religiosas no Brasil. Assim como a diferença entre Umbanda e Candomblé reflete caminhos espirituais distintos, a Umbanda cruzada representa mais uma dessas possibilidades.
A Origem Histórica da Umbanda Cruzada
Para entender a umbanda cruzada, é necessário conhecer o contexto histórico em que ela surgiu. A Umbanda, como religião organizada, nasceu oficialmente no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, com a manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas através do médium Zélio Fernandino de Moraes em 1908.
No entanto, antes mesmo dessa data, práticas religiosas de matriz africana já existiam no Brasil há séculos, trazidas pelos escravizados que vieram de diferentes regiões da África — cada um com suas próprias tradições, divindades e rituais. Com o tempo, essas práticas se misturaram entre si e com elementos do catolicismo, do espiritismo kardecista e das religiões indígenas.
A umbanda cruzada nasceu nesse caldeirão cultural, quando terreiros que praticavam Umbanda começaram a incorporar fundamentos do Candomblé de Angola, do Candomblé Ketu ou da Quimbanda em seus rituais. Isso aconteceu principalmente nas periferias das grandes cidades brasileiras, onde famílias de diferentes tradições religiosas conviviam e compartilhavam conhecimentos espirituais.
Alguns sacerdotes tinham iniciação tanto na Umbanda quanto no Candomblé, o que naturalmente levou a uma fusão de práticas. Em vez de manter os dois cultos completamente separados, eles criaram uma forma híbrida que combinava o melhor de ambas as tradições — dando origem ao que hoje conhecemos como umbanda cruzada.
Características Principais da Umbanda Cruzada
A umbanda cruzada possui características específicas que a distinguem tanto da Umbanda tradicional quanto do Candomblé puro. Conhecer essas características ajuda a identificar quando um terreiro pratica essa vertente.
Uso de atabaques consagrados: Na Umbanda tradicional, os atabaques nem sempre são consagrados ritualmente. Na umbanda cruzada, os atabaques geralmente passam por um processo de consagração similar ao do Candomblé, sendo tratados como objetos sagrados com vida espiritual própria.
Assentamentos de Orixás: Enquanto a Umbanda tradicional trabalha com imagens e pontos riscados, a umbanda cruzada frequentemente utiliza assentamentos — conjuntos de objetos rituais consagrados que representam a presença física do orixá no terreiro, uma prática comum no Candomblé.
Rituais mais elaborados: As giras na umbanda cruzada tendem a ser mais longas e elaboradas, com uso de cantigas tanto em português quanto em iorubá, defumações mais complexas e trabalhos espirituais que podem durar várias horas.
Hierarquia sacerdotal: A estrutura hierárquica na umbanda cruzada costuma ser mais definida, com títulos que mesclam a terminologia da Umbanda (Pai/Mãe de Santo, Cambono) com a do Candomblé (Babalorixá, Ialorixá, Ekedi, Ogã).
Diferenças Entre Umbanda Cruzada e Umbanda Tradicional
A principal diferença entre a umbanda cruzada e a Umbanda tradicional está na intensidade e na origem dos elementos rituais utilizados. Enquanto a Umbanda tradicional (também chamada de Umbanda Branca ou Umbanda de Mesa) privilegia a simplicidade e a caridade, a umbanda cruzada adiciona camadas de complexidade ritual vindas do Candomblé.
Na Umbanda tradicional, o foco principal está na incorporação de entidades — Caboclos, Pretos Velhos, Erês, Baianos e Marinheiros — que dão consultas e passes nos consulentes. Na umbanda cruzada, além dessas entidades, pode haver também o culto direto aos Orixás nos moldes do Candomblé, com oferendas específicas, quizilas alimentares e obrigações rituais mais complexas.
Outra diferença significativa é o uso de elementos como pólvora, pemba e fundanga nos trabalhos espirituais. Na Umbanda tradicional, esses elementos são usados com moderação. Na umbanda cruzada, eles fazem parte regular dos rituais, especialmente nas sessões de Exu e Pomba Gira.
Umbanda Cruzada e Quimbanda: Qual a Relação?
Muitas pessoas confundem umbanda cruzada com Quimbanda, mas são coisas diferentes. A Quimbanda é uma tradição religiosa autônoma, focada no culto aos Exus e Pomba Giras como entidades centrais. Já a umbanda cruzada continua sendo Umbanda — com sua diversidade de linhas e entidades — mas com elementos rituais adicionais.
Na umbanda cruzada, os Exus e Pomba Giras recebem atenção especial e têm rituais mais elaborados do que na Umbanda tradicional, mas eles não são as únicas entidades cultuadas. A diversidade de linhas espirituais da Umbanda — Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros — continua sendo respeitada e praticada.
É possível encontrar terreiros de umbanda cruzada que trabalham com elementos da Quimbanda em noites específicas, dedicadas exclusivamente ao culto de Exus e Pomba Giras, enquanto outras noites são reservadas para giras tradicionais de Umbanda com Caboclos e Pretos Velhos.
As Entidades da Umbanda Cruzada
Na umbanda cruzada, o panteão de entidades é amplo e diversificado. Além das entidades tradicionais da Umbanda, podem aparecer entidades que transitam entre diferentes tradições religiosas, refletindo a natureza sincrética dessa vertente.
Os Exus na umbanda cruzada tendem a ser mais atuantes e presentes do que na Umbanda tradicional. Eles recebem oferendas mais elaboradas, têm assentamentos próprios e participam ativamente dos trabalhos espirituais de demanda, proteção e abertura de caminhos.
Os Caboclos e Pretos Velhos continuam sendo pilares fundamentais da umbanda cruzada, mantendo sua função de aconselhamento, cura e descarrego espiritual. A diferença é que, nessa vertente, eles podem trabalhar com elementos rituais mais intensos, como ervas maceradas, banhos com fundamentos e rezas em línguas africanas.
As Pomba Giras também ocupam um espaço de destaque, sendo consultadas para questões de amor, sexualidade, autoestima e empoderamento feminino. Na umbanda cruzada, as Pomba Giras frequentemente têm seus próprios assentamentos e festas anuais dedicadas a elas.
Pontos Cantados e Rituais na Umbanda Cruzada
Os pontos cantados na umbanda cruzada misturam cantigas em português com palavras e expressões em iorubá, quimbundo e outras línguas africanas. Essa mistura linguística reflete a natureza sincrética da vertente e cria uma sonoridade única que distingue os terreiros de umbanda cruzada dos demais.
Aprender a cantar pontos na umbanda cruzada exige familiaridade tanto com o repertório da Umbanda quanto com cantigas do Candomblé. Os ogãs (tocadores de atabaque) precisam dominar diferentes toques e ritmos, transitando entre os ritmos tradicionais da Umbanda e os toques sagrados do Candomblé conforme a energia do trabalho espiritual exige.
Os rituais na umbanda cruzada costumam começar com uma abertura formal, chamando os orixás e pedindo licença aos guardiões do terreiro. Em seguida, são realizadas as defumações, os pontos de abertura e as firmezas — preparações energéticas que antecedem a incorporação das entidades. O axé é cultivado com cuidado e reverência em cada etapa do ritual.
Polêmicas e Preconceitos Sobre a Umbanda Cruzada
A umbanda cruzada é alvo de preconceitos tanto de praticantes da Umbanda tradicional quanto do Candomblé. Alguns umbandistas tradicionais consideram que a mistura de elementos “descaracteriza” a Umbanda original. Por outro lado, candomblecistas podem ver a umbanda cruzada como uma apropriação superficial de seus fundamentos sagrados.
Essa polêmica, embora compreensível, ignora que as religiões afro-brasileiras sempre foram sincréticas por natureza. A própria Umbanda nasceu do sincretismo entre tradições africanas, católicas, espíritas e indígenas. A umbanda cruzada é simplesmente mais uma etapa desse processo natural de evolução e adaptação religiosa.
O mais importante não é a classificação do terreiro, mas sim a seriedade com que os trabalhos espirituais são conduzidos. Um terreiro de umbanda cruzada sério e comprometido pode ser tão espiritualmente poderoso e benéfico quanto um terreiro de Umbanda tradicional ou de Candomblé. O que define a qualidade do trabalho espiritual é a fé, o respeito e o compromisso dos praticantes.
Como Encontrar um Terreiro de Umbanda Cruzada Sério
Se você se identifica com a umbanda cruzada e deseja frequentar um terreiro dessa vertente, é importante saber como identificar uma casa séria e comprometida com a espiritualidade. Alguns critérios podem ajudar nessa busca.
Um terreiro sério de umbanda cruzada nunca cobra valores exorbitantes por trabalhos espirituais. A caridade é um princípio fundamental da Umbanda em todas as suas vertentes, e cobranças abusivas são sinal de alerta. Terreiros sérios podem pedir contribuições voluntárias para manutenção da casa, mas nunca condicionam o atendimento espiritual ao pagamento.
Observe se o dirigente tem fundamento real — ou seja, se passou por processos legítimos de iniciação e aprendizado. Na umbanda cruzada, é esperado que o sacerdote tenha conhecimento tanto da Umbanda quanto do Candomblé, demonstrando domínio dos fundamentos de ambas as tradições.
Preste atenção na energia do ambiente e no comportamento dos médiuns durante as giras. Entidades sérias não fazem escândalos, não pedem bebida alcoólica em excesso e não dão conselhos destrutivos. As proteções espirituais devem estar presentes em todo o espaço, transmitindo paz e acolhimento aos visitantes.
As Diferentes Vertentes da Umbanda no Brasil
A umbanda cruzada é apenas uma das muitas vertentes que a Umbanda desenvolveu ao longo de sua história no Brasil. Compreender esse panorama mais amplo ajuda a situar a umbanda cruzada dentro do universo diversificado da espiritualidade umbandista e a respeitar cada caminho como legítimo.
A Umbanda Branca ou Umbanda de Mesa é a vertente mais próxima do espiritismo kardecista, com rituais simples, sem atabaques, focada na mediunidade e na caridade. A Umbanda Popular é a forma mais comum encontrada nos terreiros brasileiros, com atabaques, pontos cantados, defumações e incorporação de diversas linhas de entidades.
A Umbanda Sagrada ou Umbanda Natural busca uma codificação mais organizada da religião, com ênfase na teologia dos orixás e nos fundamentos espirituais. A Umbanda Esotérica incorpora elementos da teosofia, astrologia e outras correntes esotéricas ocidentais em suas práticas.
Já a umbanda cruzada, como vimos, é a vertente que mais se aproxima do Candomblé, incorporando seus fundamentos rituais mais elaborados. Cada uma dessas vertentes contribui para a riqueza e a diversidade da Umbanda como religião, e todas merecem respeito e reconhecimento como caminhos válidos de evolução espiritual.
A Umbanda Cruzada e o Respeito à Diversidade Religiosa
Em tempos de crescente intolerância religiosa no Brasil, é fundamental que praticantes de todas as vertentes da Umbanda — incluindo a umbanda cruzada — se unam em defesa da liberdade religiosa e do respeito à diversidade espiritual. A Constituição brasileira garante o direito à liberdade de crença e culto, e esse direito deve ser exercido e defendido por todos.
A umbanda cruzada, assim como todas as religiões de matriz africana, faz parte do patrimônio cultural e espiritual do Brasil. Suas práticas, rituais e ensinamentos contribuem para a preservação de tradições ancestrais que remontam a séculos de história, resistência e fé. Defender o direito de praticar a umbanda cruzada é defender a memória dos ancestrais africanos que construíram a base da espiritualidade brasileira.
Se você deseja conhecer mais sobre as tradições espirituais afro-brasileiras, explore nossos artigos sobre Orixás, ervas de proteção e banhos espirituais. O conhecimento é a melhor forma de combater o preconceito e fortalecer sua jornada espiritual na umbanda cruzada ou em qualquer outra vertente que ressoe com seu coração.
Ervas e Banhos Utilizados na Umbanda Cruzada
Na umbanda cruzada, o uso de ervas é mais intenso e variado do que na Umbanda tradicional. Os sacerdotes dessa vertente costumam ter profundo conhecimento de botânica sagrada, combinando receitas da Umbanda com preparações típicas do Candomblé para criar banhos, defumações e garrafadas de grande potência espiritual.
Os banhos espirituais na umbanda cruzada podem incluir ervas como arruda, guiné, espada-de-são-jorge, alecrim, manjericão, folha de louro e ervas de proteção específicas para cada orixá. A preparação segue rituais mais elaborados, com cantigas em iorubá e sacralização das ervas antes do uso.
As defumações na umbanda cruzada também são mais complexas, utilizando combinações de incensos, ervas secas, cascas de árvore e resinas aromáticas que são queimadas em turíbulos durante os trabalhos espirituais. Cada combinação é preparada especificamente para o tipo de trabalho que será realizado naquela sessão — limpeza, proteção, atração ou descarrego.
O banho de descarrego na umbanda cruzada frequentemente inclui ingredientes adicionais como sal grosso consagrado, dendê sagrado e águas coletadas de fontes naturais em horários específicos — geralmente ao amanhecer ou ao anoitecer, quando as energias de transição são mais potentes. Esses cuidados adicionais refletem a busca por maior eficácia espiritual que caracteriza essa vertente da Umbanda.
Para os filhos de orixás específicos que frequentam a umbanda cruzada, é essencial conhecer as ervas e oferendas do seu orixá regente. No caso dos filhos de Oxum, por exemplo, as ervas de Oxum como camomila, rosa branca e erva-cidreira devem ser usadas nos banhos pessoais, enquanto os filhos de Ogum preferem ervas mais fortes como espada-de-são-jorge e arruda.
O que é umbanda cruzada?
Umbanda cruzada é uma vertente da Umbanda que incorpora elementos de outras tradições afro-brasileiras, principalmente do Candomblé e da Quimbanda. O termo cruzada refere-se ao cruzamento de práticas e fundamentos de diferentes origens religiosas em uma única forma de culto.
Umbanda cruzada é macumba?
Macumba é um termo genérico (e muitas vezes pejorativo) usado para se referir a práticas religiosas afro-brasileiras. A umbanda cruzada é uma vertente legítima da Umbanda que merece respeito. Usar o termo macumba de forma depreciativa é uma expressão de intolerância religiosa.
Qual a diferença entre umbanda cruzada e Quimbanda?
A Quimbanda é uma tradição religiosa autônoma focada no culto aos Exus e Pomba Giras. A umbanda cruzada continua sendo Umbanda, com diversidade de linhas e entidades, mas com elementos rituais do Candomblé e da Quimbanda incorporados às suas práticas.
Umbanda cruzada é perigosa?
Não. Nenhuma forma legítima de religião é perigosa em si. O que pode ser prejudicial são práticas realizadas por pessoas sem preparo ou com más intenções, independentemente da vertente religiosa. Um terreiro sério de umbanda cruzada é tão seguro quanto qualquer outro espaço religioso.
Posso frequentar um terreiro de umbanda cruzada sendo iniciante?
Sim. Terreiros sérios de umbanda cruzada recebem visitantes e iniciantes com acolhimento. É recomendável assistir a algumas giras como observador antes de participar ativamente, para se familiarizar com os rituais e a energia do local.